
Eventos como Choro no Eixo, Jazz no Eixo e Rock no Eixo resistem à proibição e reacendem o debate sobre o uso dos espaços públicos em Brasília
No último domingo (8), o Eixão do Lazer voltou a ser ocupado por artistas, músicos, ambulantes e famílias, apenas uma semana após o Governo do Distrito Federal (GDF) tentar proibir eventos culturais no local. A ação anterior, feita sem aviso prévio, retirou apresentações e vendedores do espaço, causando indignação na cena cultural da cidade.
Movimentos como Choro no Eixo, Jazz no Eixo e Rock no Eixo reuniram público e apoiadores, retomando a ocupação da via com arte, música e resistência. Para o músico Márcio Marinho, um dos fundadores do Choro no Eixo, a retomada é mais que um protesto: “Agora é a população inteira que se reconhece no Eixão. É um direito de acesso à cidade que não pode ser perdido”.
A tentativa de esvaziar o Eixão gerou um intenso debate sobre o direito à cidade, uso democrático do espaço público e as limitações impostas por legislações antigas, como a que proíbe a venda de bebidas alcoólicas em rodovias.
A urbanista e professora da UnB, Maria Fernanda Derntl, destacou a importância de ver o espaço público como lugar de convivência. “Essas tensões não são negativas. Elas nos obrigam a refletir e dialogar sobre como queremos viver juntos. É um exercício de democracia.”
Novo decreto e falta de diálogo
Diante da repercussão, o GDF publicou um decreto determinando que o DER-DF elabore, em até 30 dias, um plano de uso do Eixão. Até lá, ambulantes poderão continuar atuando com autorizações provisórias, desde que não comercializem bebidas alcoólicas. No entanto, a medida não prevê a participação da sociedade civil na criação do plano, o que gerou novas críticas.
Para Leonardo Rodrigues, articulador do movimento Ocupa Eixão, o futuro do espaço precisa ser construído com diálogo: “É essencial ouvir a população, os coletivos culturais, os moradores. Não dá para decidir de cima para baixo.”
O Eixão como polo cultural e econômico
Desde a pandemia, o Eixão do Lazer — tradicionalmente usado para atividades físicas aos domingos — passou a ser ocupado também por eventos culturais e por pequenos comerciantes. Para muitos trabalhadores, como a churrasqueira Auricélia Rocha, de 37 anos, o espaço é fonte de renda vital. “É daqui que tiro o sustento. O que fizeram na semana passada foi desumano”, desabafou ela, que trabalha no local há dois anos com mais três pessoas.
A mobilização popular de domingo reuniu não só músicos e artistas, mas também parlamentares, movimentos sociais e cidadãos que defenderam o uso plural do espaço como símbolo de um direito coletivo à cidade.




